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“Os pacientes chegam ao consultório muito constrangidos: além de vergonha,
sentem culpa”. Esse constrangimento favorece velhas desculpas para se adiar a
ida ao dentista: medo e falta de tempo. Quem tem vergonha sente mais receio e,
convenientemente, nunca arranja tempo.
No Brasil, apenas 55% dos adolescentes têm todos os dentes. Entre os adultos, o
número cai para 54% e, entre idosos, para 10%. Ao todo, são 30 milhões de
brasileiros desdentados, segundo uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde
no início do ano. Cerca de 8 milhões precisam de prótese dentária completa, a
dentadura.
“A perda de dentes é uma mutilação”, afirma Gustavo Lacerda, professor de
prótese dentária da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. “Uma paciente
escondeu a vida inteira no marido que usava dentadura, era seu grande segredo”,
conta. “Outra, bem velhinha, chorou na hora de extrair o último dente, o único
por muitos anos. Tinha se apegado a ele.”
Às vezes, a auto-estima sucumbe por conta de problemas bem mais simples, como o
mau hálito. Mais de 90% dos casos de halitose decorrem de problemas bucais -
apenas uma minoria está relacionada a falhas digestivas. “As pessoas davam
passos para trás quando eu falava”, lembra a advogada Camila Moraes, de 35 anos.
Aos 16, ela quebrou um de seus molares ao morder uma bala e o dente passou a
acumular restos de alimentos. “Escovava os dentes, usava fio-dental, nada
adiantava.”
Até o marido reclamava. No ano passado, um trabalho com porcelana tapou todos os
buraquinhos do dente, resolvendo o problema. “Parei com uma velha mania de falar
sempre ao pé do ouvido.”
A secretária Geovanna da Silva, de 25, tinha outro problema: dentes projetados
para frente. Era chamada de “Mônica” na escola, numa referência à dentuça
personagem das revistinhas de Maurício de Sousa. “Acabei adotando uma postura
defensiva: ia ao dentista por questões de saúde; estética, jamais.” Há três
anos, porém, ela resolveu colocar aparelho ortodôntico. Hoje, problema
resolvido, ficou até mais exigente com os homens: “A primeira coisa que olho são
os dentes”.
O ortodontista Ivan Valle, diretor do Oralface Institute de São Paulo, conta que
a maioria dos pacientes que chegam ao consultório reclamando de problemas de
mordida estão, na verdade mais preocupados com a aparência. “Costumo dizer que
faço um trabalho orto-emocional”, afirma. “É bom ver que, no final do
tratamento, as pessoas começam a se vestir melhor e mudam até o corte de
cabelo.” A verdade é que saúde bucal é como flúor para o amor próprio.
Boca 'turbinada'
A dentadura, prótese completa móvel, é tida como a última alternativa. Próteses
parciais, fixas ou móveis, podem ser apoiadas em dentes laterais ou mesmo em
pinos implantados são uma alternativa menos radical. Mas é, sim, possível usar
dentadura e manter o bem-estar. Hoje, as peças feitas são mais confortáveis e
realistas. Há também colas (em pó, pasta ou adesivos) que fixam a dentadura nas
gengivas por até 12 horas.
As próteses móveis não devem ser lavadas com creme dental, mas com água e sabão
ou, melhor: com anti-sépticos específicos. Fora da boca, devem ser conservadas
dentro d'água, mas não é obrigatório retirá-las para dormir. E não esqueça: as
gengivas devem ser escovadas todos os dias.
Prevenção é a melhor atitude
Prevenir é sempre a maneira mais econômica e menos dolorida de se cuidar da
saúde bucal. Escovar os dentes pelo menos três vezes (de preferência, logo após
as refeições) e passar fio-dental ao menos uma vez por dia continuam sendo a
melhor maneira de evitar problemas. Peça orientação ao seu dentista e,
importante, conheça sua boca: abra-a diante do espelho, coloque a língua para
fora, observe a cor e a textura das gengivas.
Qualquer ferida que não desapareça em 20 dias deve ser avaliada pelo dentista. A
propósito, o profissional deve ser consultado ao menos uma vez por ano, mesmo
que não haja sintomas. É sempre chato repetir, mas o cigarro é um grande vilão
da saúde bucal - além de causar mau hálito e escurecer os dentes, pode favorecer
o aparecimento de inflamações e tumores.
Boca perfumada
Só 10% dos casos de mau hálito estão relacionados a falhas na digestão. Para a
grande maioria, a causa do problema está na boca mesmo. Dentes tortos, quebrados
ou com restaurações malfeitas podem acumular sujeira e gerar odores
desagradáveis, assim como inflamações, como gengivite e periodontite.
Mas a principal vilã é mesmo a língua, que, recoberta por um tecido esponjoso,
acumula restos alimentares. Por isso, escove a língua ao menos três vezes por
semana, mas sem fazer força, para não desgastar as papilas gustativas,
responsáveis pelo paladar. Há no mercado peças de plástico específicas para a
higiene lingual, que também pode ser feita com uma colher de sopa, raspando
suavemente a superfície, do fundo à ponta.
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