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E não são poucas: estudos científicos indicam que a odontofobia atinge de 15% a 20% da população. O problema é tão sério que merecerá atenção especial no 21º Congresso Internacional de Odontologia de São Paulo, que será realizado na próxima semana. Durante o evento, serão feitos workshops sobre a sedação consciente inalatória e a hipnose, técnicas que têm auxiliado pacientes que suam frio quando vão ao dentista. "O dentista trabalha com medo, fobia, estresse e dor", afirma José Ranali, professor da Faculdade de Odontologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), campus de Piracicaba. "Temos que lidar com isso, ajudando a controlar a ansiedade do paciente", diz ele, que ensina a sedação consciente. A recepcionista Louise de Camargo Pereira, 22, enquadra-se nas estatísticas científicas. "Quando entro no consultório, começo a suar frio. Só de pensar no barulho do "motorzinho", eu me arrepio!" O ruído dos equipamentos incomoda pessoas de todas as faixas etárias. A odontopediatra Cláudia Marassi está confirmando essa tese na prática. Desde outubro do ano passado, ela tem usado um dispositivo especial, chamado diamante CVD (Chemical Vapor Deposition). Ele funciona da mesma forma que as brocas convencionais, mas é mais fácil de manusear (o que acelera o tratamento), não aquece tanto o dente e é mais silencioso. "Os pacientes se sentem mais seguros por não ouvir tanto barulho." De acordo com o psicólogo Antonio Carlos Amador Pereira, professor da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, é comum que as pessoas associem o som produzido pelo aparelho ou a cadeira do profissional à dor. A estudante Karina Pólido, 23, reconhece que é isso que acontece com ela. "Temo tudo que associo à dor", afirma. "Já cheguei a desmarcar consulta por causa disso." Segundo Pereira, o medo de situações como uma consulta no dentista, um exame mais demorado ou uma cirurgia, mesmo simples, pode ser decorrente do fato de que, na sociedade contemporânea ocidental, as pessoas são treinadas para buscar o prazer e evitar a dor. "Até a Idade Média, por exemplo, as pessoas arrancavam dente a seco e eram obrigadas a conviver com isso, pois não havia opção", afirma o psicólogo. Experiências negativas O medo também pode ter raízes no passado. "Muitas vezes, o paciente torna-se odontofóbico porque vivenciou dor ou teve alguma experiência negativa com dentistas na infância", afirma a odontopediatra Eliana Amarante. Foi o que aconteceu com a professora Sônia Maria de Carvalho Pinto, 32. "Acho que meu medo começou quando era pequena e fui a alguns dentistas ruins que fizeram o tratamento de qualquer jeito; até desmaiei por causa do medo de sentir dor", lembra. Já adulta, ela passou por outra experiência ruim: mesmo depois de seis doses, o anestésico não surtiu efeito, e ela foi obrigada a tratar um canal sem estar anestesiada. O medo até provoca insônia. Neste mês, ela teve de extrair dois pré-molares para usar aparelho ortodôntico. "Fiquei sem dormir três noites, tomando chá para tentar me acalmar", diz a professora. Da mesma forma que as experiências negativas atrapalham, as bem-sucedidas ajudam a eliminar ou, pelo menos, reduzir o temor. É o caso de Pedro Basile Lindenberg, 10. Segundo sua mãe, a personal trainer Cássia Maria Amajones, 39, ele chorava muito e tinha de ser segurado quando precisava tomar anestesia. Recentemente, o garoto precisou extrair quatro dentes e, durante o procedimento, foi submetido à sedação consciente inalatória. "Com essa técnica, ele não sentiu dor e, como tudo foi explicado de forma detalhada pela dentista, ele ficou mais confiante", diz a mãe. Pedro parece ter superado o problema. "Ele precisou fazer uma obturação depois das extrações e nem tomou anestesia." A sensação do desconhecido -que, no caso de Pedro, foi solucionada pelas explicações da dentista- também pode gerar medo, explica o psicólogo Antonio Pereira. Além de não entender exatamente como será feito o tratamento, o paciente pode ainda se sentir impotente. "Quando está na cadeira do dentista, a pessoa não está controlando a situação", afirma o psicólogo. O psiquiatra Márcio Bernik, coordenador do Amban (Ambulatório de Ansiedade), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC), aconselha a pessoa a tentar se habituar gradativamente à situação, levando um amigo ao dentista e acompanhando sua consulta, por exemplo. "Assim, o que antes causava terror passa a causar tédio, e as reações de ansiedade vão se consumindo." O temor também pode ser "transmitido" de pai para filho. "Metade das crianças sentem medo de dentista quando os pais também o sentem", afirma Cláudia Marassi. Isso pode acontecer quando o pai conta uma experiência dolorosa para a criança. A cirurgiã-dentista cita outra atitude dos pais que pode gerar temor: fazer ameaças, convertendo o próprio dentista, a anestesia ou a injeção em castigo quando a criança faz alguma travessura. Algumas dicas: • Respire profunda e calmamente antes de sentar-se na cadeira do dentista e enquanto estiver em tratamento. Ao se concentrar na respiração, você deixa de prestar tanta atenção ao dentista e ainda oxigena melhor o cérebro. • Utilize técnicas de relaxamento, como meditação e exercícios de ioga. • Se você tem fobia de sangue ou de ferimentos, não tente relaxar. Contraia os músculos para evitar desmaios. • Acompanhe o tratamento de parentes e amigos para se habituar gradativamente ao ambiente e à situação. • O desconhecido gera insegurança. Por isso peça ao dentista para explicar o tratamento antes de iniciá-lo. • Não transfira o próprio medo aos seus filhos. Evite associar o dentista a algo doloroso ou punitivo e mostre que a ida ao consultório faz parte da rotina.
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